Sobre a qualidade da 谩gua na Ria de Aveiro
Sobre a qualidade da 谩gua na Ria de Aveiro
1 鈥 A RIA DE AVEIRO COMO ESTU脕RIO
Do ponto de vista topogr谩fico a Ria de Aveiro 茅 aquilo a que habitualmente se chama um estu谩rio de barra. Como tal, 茅 caracterizado pela exist锚ncia de uma restinga arenosa, estreita, comprida e baixa, que separa o mar de uma laguna interior. A boca do estu谩rio que, como 茅 t铆pico, historicamente se deslocou de sitio ao longo da restinga, teve que ser artificialmente fixada e 茅, em alguma medida, artificialmente mantida atrav茅s de dragagens.
Dada a intr铆nseca instabilidade da faixa costeira, 茅 poss铆vel abrirem-se, em qualquer altura, novas bocas para o mar, o que come莽ou a acontecer nos 煤ltimos invernos a sul da Costa Nova.

Representa莽茫o esquem谩tica da regi茫o da Ria de Aveiro.
As obras que a铆 est茫o em curso eliminaram, aparentemente, o perigo imediato de ruptura, mas h谩 raz玫es para duvidar da sua estabilidade a longo prazo. Situa莽茫o paralela se tem observado na Torreira e na regi茫o de Esmoriz, onde as autoridades locais reclamam obras urgentes de estabiliza莽茫o da costa.
No lado interior da restinga espraia-se uma laguna, que tamb茅m tipicamente tem fundos pequenos e correntes, que s茫o fortes na boca do estu谩rio e que genericamente s茫o fracos em todo o resto da laguna. Nesta desaguam v谩rios cursos de 谩gua, que drenam a vertente ocidental da zona montanhosa que se estende desde a regi茫o de A rouca ao Bu莽aco e a extensa plataforma litoral, que vai de Ovar at茅 脿 Tocha. Uma representa莽茫o esquem谩tica da regi茫o da Ria de Aveiro 茅 apresentada na Fig. 1.
Sendo o Vouga o 煤nico rio com caudais de inverno apreci谩veis, s贸 ele afecta significativamente a topografia do fundo. Na Foz de todos os outros rios e na restante 谩rea da laguna afastada da boca para o mar, o fen贸meno de sedimenta莽茫o parece dominar o de arrastamento mec芒nico. Na regi茫o da boca do estu谩rio, onde as correntes de mar茅 s茫o muito fortes, a topografia do fundo 茅 determinada pela grandeza e direc莽茫o dessas correntes, pela cunha de mar茅 e pelas caracter铆sticas do mar na regi茫o costeira. Havendo aqui um transporte s贸lido importante no sentido norte-sul, esse fen贸meno tem tido efeitos not谩veis na topografia da boca do estu谩rio, mesmo ap贸s 88 obras de engenharia civil que a fixaram artificialmente, criando dificuldades de navega莽茫o 脿s embarca莽玫es que demandam o porto de Aveiro. Essas dificuldades aumentam quando ocorrem certas condi莽玫es do mar, que fomentam o assoreamento nas vizinhan莽as do canal de entrada. O transporte s贸lido ao longo da costa, associado ao pequeno declive do fundo do mar nesta regi茫o, d谩 origem 脿 forma莽茫o de um banco de areia, longo e estreito, no prolongamento do molhe norte, constituindo um obst谩culo adicional ao bom funcionamento do porto (Fig. 2). Estes exemplos d茫o subst芒ncia 脿 afirma莽茫o feita acima de que a restinga de um estu谩rio de barra 茅 inst谩vel e que qualquer ac莽茫o humana que interfira com a sua forma莽茫o natural 茅 suscept铆vel de causar altera莽玫es topogr谩ficas relativamente profundas e frequentemente imprevis铆veis.
A Ria de Aveiro, como qualquer estu谩rio, 茅 uma regi茫o onde ocorrem varia莽玫es muito acentuadas nos valores de alguns par芒metros de qualidade da 谩gua e onde t锚m lugar fen贸menos f铆sico-qu铆micos de grande import芒ncia os quais ocorrem na coluna l铆quida, nos sedimentos e ainda na superf铆cie de contacto desses dois meios. Entre os par芒metros sujeitos a maiores gradientes ao longo do estu谩rio encontram-se a salinidade, o pH, o potencial redox, e as concentra莽玫es de nutrientes, de mat茅ria org芒nica e de elementos vestigiais.
Relev芒ncia especial t锚m as varia莽玫es de salinidade que, por sua vez, traduzem altera莽玫es profundas na composi莽茫o qu铆mica do meio l铆quido. Essas altera莽玫es resultam de serem muito diferentes as propor莽玫es relativas dos elementos na 谩gua do mar e na 谩gua dos rios e de o processo de mistura ser em geral muito complexo. Essa complexidade, de resto, est谩 na base de uma classifica莽茫o de estu谩rios baseada na sua estrutura salina, segundo a qual a Ria de Aveiro talvez possa ser considerada um estu谩rio parcialmente misturado com fluxos de mar茅 muito grandes em compara莽茫o com o caudal dos rios. E diz-se talvez, porque a magreza e o rigor dos dados experimentais existentes n茫o permitem ainda fazer uma aprecia莽茫o mais realista. Basta dizer que nenhum dos rios afluentes tem os seus caudais permanentemente medidos e que o campo das correntes s贸 foi parcialmente medido no in铆cio da d茅cada de 1950.
Duas consequ锚ncias importantes est茫o associadas 脿 varia莽茫o de salinidade que ocorre no estu谩rio. Uma 茅 a profunda altera莽茫o que sofre a for莽a i贸nica; a outra 茅 a forma莽茫o de solu莽玫es sobressaturadas relativamente a alguns compostos. As altera莽玫es de for莽a i贸nica est茫o na base de um conjunto extenso de fen贸menos t铆picos de estu谩rios: s茫o col贸ides que floculam e se depositam; s茫o complexos que se destroem e que d茫o origem a outros complexos ou a precipitados ou ainda que libertam os elementos que cont茅m, os quais podem vir a ser fixados pela biota ou pelas superf铆cies inertes; s茫o precipitados, quer em suspens茫o quer depositados no fundo, que se dissolvem; s茫o gradientes de concentra莽茫o que se criam na 谩gua intersticial dos sedimentos, dando origem a trocas de massa na interface fundo-coluna l铆quida; s茫o trocas i贸nicas que ocorrem 脿 superf铆cie das part铆culas, ocupando ou libertando centros activos dos quais se libertam ou aos quais se ligam elementos essenciais ou biocidas; s茫o mol茅culas org芒nicas complexas, que floculam e, finalmente, se depositam, enriquecendo os sedimentos na sua frac莽茫o vol谩til e conferindo-lhe condi莽玫es favor谩veis ao aumento da mobilidade de certos componentes, nomeadamente de i玫es met谩licos pesados; enfim, poderiam ser dados muitos outros exemplos.
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Figura 2: Esquema topogr谩fico da boca do estu谩rio da Barra de Aveiro.
J谩 se disse que nos estu谩rios ocorrem grandes flutua莽玫es de pH, salinidade e potencial redox. Essas flutua莽玫es s茫o induzidas, entre outros factores como vento, topografia e temperatura, pelos movimentos das mar茅s e pelos regimes de descarga dos rios. Elas s茫o pois movimentos peri贸dicos a v谩rias coordenadas, onde aparecem traduzidas a hora do dia, o dia do m锚s e a esta莽茫o do ano. E como essas flutua莽玫es afectam o grau de mistura e a for莽a i贸nica das 谩gua, dos estu谩rios, 茅 f谩cil entender que nelas haja, como efectivamente h谩, um grande dinamismo, o qual se traduz n茫o s贸 pele varia莽茫o no tempo da predomin芒ncia de cada fen贸meno, mas tamb茅m pela varia莽茫o geogr谩fica do local onde ele ocorre. Da铆 que em estu谩rios com grande tempo de resid锚ncia, como 茅 o caso da Ria de Aveiro, haja uma permanente altera莽茫o da topografia dos fundos e das margens, altera莽茫o essa que pode ser exageradamente hipertrofiada se interven莽玫es antropog茅nicas tiverem por efeito, como tantas vezes t锚m, desequilibrar o ritmo natural de evolu莽茫o do estu谩rio. Por exemplo: a implanta莽茫o dos pilares de uma ponte pode desviar uma corrente de tal forma que ela passe a atacar uma margem.
T锚m-se vindo a referir at茅 aqui aspectos relativos ao ambiente abi贸tico de estu谩rios. E come莽ou-se por eles para p么r em evid锚ncia a Import芒ncia que os factores f铆sicos, qu铆micos e geoqu铆micos t锚m na biologia. Parece ser claro do que ficou dito que os estu谩rios s茫o meios bastante desfavor谩veis 脿 vida, havendo apenas um n煤mero limitado de esp茅cies capazes de suportar os rigores desses ambientes. Apesar disso, os estu谩rios s茫o partes muito importantes do ecossistema cesteiro, desempenhando papel de relevo em certas fases da vida de esp茅cies de grande valor comercial. E se 茅 certo que o n煤mero de esp茅cies 茅 limitado, o mesmo se n茫o passa com o n煤mero de indiv铆duos de cada esp茅cie, que pode ser muito significativo. Os estu谩rios s茫o, por isso, a sede de pescarias multas vezes pr贸speras e t锚m condi莽玫es muita favor谩veis para a pr谩tica de aquacultura. Mas sendo os estu谩rios ecossistemas sujeitos a intenso uso econ贸mico, esse uso p玫e muitas vezes em perigo a sa煤de da biota e a produtividade biol贸gica. Na Ria de Aveiro, essa competi莽茫o entre os interesses biol贸gicos e os interesses econ贸micos come莽a a dar sinais de rotura. Tratar-se-茫o, mais adiante, dois aspectos dessa competi莽茫o. S茫o eles biota contra efluentes dom茅sticos e biota contra efluentes industriais.
Entretanto, n茫o gostaria de deixar de fazer uma refer锚ncia breve 脿s trocas de massa que t锚m lugar na superf铆cie da laguna. Al茅m das trocas gasosas que est茫o na mente de todos (O2 CO2), a superf铆cie das 谩guas naturais recebe directamente da atmosfera, seja na chuva, seja nas poeiras, quantidades apreci谩veis de res铆duos de toda a esp茅cie, tanto naturais como sint茅ticos. Metais, pesticidas, hidrocarbonetos, todos eles entram na 谩gua directamente da atmosfera. Mas se 茅 verdade que, em 谩reas grandes, as massas entradas por essa via podem ser muito importantes, (no Mar do Norte, por exemplo, os metais poluentes entrados da atmosfera excedem a contribui莽茫o do rio Reno), em 谩reas pequenas como a Ria de Aveiro julga-se essa contribui莽茫o destitu铆da de significado, tanto mais que os ventos dominantes s茫o de proveni锚ncia oce芒nica.
2 - IMPACTO DOS EFLUENTES URBANOS SOBRE A RIA DE AVEIRO
Desde sempre que as popula莽玫es ribeirinhas lan莽aram os seus efluentes nas massas de 谩gua que lhes passavam ou estavam 脿 porta. E enquanto a popula莽茫o se manteve em n铆veis manej谩veis, os ecossistemas foram sendo capazes de absorver as cargas que sobre eles eram lan莽adas, n茫o havendo consequ锚ncias nefastas aparentes para a biota. Houve, sim, consequ锚ncias desastrosas para a humanidade em resultado da propaga莽茫o de doen莽as contagiosas transmitidas com interven莽茫o de 谩gua, ou seja, usando uma terminologia hoje muito vulgarizada, havia polui莽茫o microbiol贸gica, mas n茫o havia polui莽茫o biol贸gica nem qu铆mica. Mas a partir dos princ铆pios da revolu莽茫o industrial, a situa莽茫o mudou-se radicalmente para pior. 脡 que a acumula莽茫o de milhares de pessoas em 谩reas muito pequenas veio originar caudais e cargas de poluentes que excediam a capacidade de assimila莽茫o dos ecossistemas.
A caracter铆stica dominante dum efluente dom茅stico ou urbano 茅 a presen莽a de centenas de mg/l de mat茅rias que s茫o biologicamente degrad谩veis, sendo transformadas principalmente em HO2, CO2 e biomassa dos microorganismos depuradores. Para que essa transforma莽茫o se processe normalmente 茅 necess谩rio haver oxig茅nio dissolvido na 谩gua em quantidade suficiente. Se isso acontece, os microorganismos reproduzem-se, eliminam a mat茅ria dissolvida no efluente, morrem, depositam-se no fundo, juntando-se l谩 脿s outras part铆culas sediment谩veis lan莽adas directamente na 谩gua, e a铆 se inicia a sua decomposi莽茫o. Nos estu谩rios, como o oxig茅nio dispon铆vel nos sedimentos 茅 geralmente muito pouco, essa decomposi莽茫o d谩-se em condi莽玫es anaer贸bias com produ莽茫o de gases qu锚 s茫o t贸xicos e t锚m maus cheiros e com a forma莽茫o de sedimentos pretos esteticamente indesej谩veis. Estes efeitos, contudo, s贸 se notam quando os sedimentos ficam a descoberto. Mas a quantidade de oxig茅nio dissolvido na 谩gua 茅 insuficiente para promover a bioxida莽茫o da mat茅ria org芒nica dissolvida no efluente, a situa莽茫o piora consideravelmente. Nesse caso, a decomposi莽茫o 茅 feita anaerobicamente na pr贸pria massa l铆quida, resultando da铆 um acr茅scimo significativo na produ莽茫o de gases de odor object谩vel, a destrui莽茫o do valor est茅tico da 谩gua, que passa a ter um aspecto repelente, e a produ莽茫o de maiores quantidades de sedimentos org芒nicos, que resultam tamb茅m da flocula莽茫o de macromol茅culas e n茫o apenas da precipita莽茫o de microorganismos. Esta situa莽茫o torna-se ca贸tica quando a 谩gua receptora tem pequeno volume e uma circula莽茫o reduzida como 茅 t铆pico nos canais dos estu谩rios do tipo barra. Pois 茅 exactamente essa a situa莽茫o que presentemente existe em Aveiro.
A cidade 茅 servida por uma rede de esgotos, na sua maior parte antiga, que escoa directamente para o Canal das Pir芒mides e para o Canal de S. Roque. O primeiro, que recebe a maior parte do efluente, renova a sua 谩gua apenas pela ac莽茫o das mar茅s; o segundo recebe uma certa contribui莽茫o de 谩gua que vem dos esteiros cio Grupo do Norte. Era consequ锚ncia desta situa莽茫o, os canais t锚m uma camada de sedimentos org芒nicos com metros de espessura, que ficam a descoberto na mar茅 baixa. Nessa altura, os canais s茫o aut锚nticos esgotos a c茅u aberto. Mesmo na mar茅 cheia, a 谩gua permanece desoxigenada a profundidades superiores a 1 cm, pelo que as fermenta莽玫es anaer贸bias s茫o permanentes.
Cerca de 1% da popula莽茫o 茅 servida por uma rede de esgotos de constru莽茫o mais recente, que drena para uma esta莽茫o de tratamento por leitos percloradores. A esta莽茫o, cuja constru莽茫o foi iniciada h谩 cerca de 1 anos e s贸 recentemente foi posta a funcionar, tem erros de concep莽茫o e foi mal dimensionada para tratar, como se pretende, todo o efluente da cidade. Presentemente, n茫o disp玫e de um clarificador secund谩rio, despejando toda a biomassa libertada dos leitos percloradores no esteiro de S. Tiago, que desagua na Lagoa do Para铆so. Esta lagoa, que 茅 uma excelente massa de 谩gua com um potencial est茅tico, recreativo e para a aquacultura muito elevado e que presentemente ainda tem em parte um fundo arenoso, est谩 pois em risco de se tornar, a curto prazo, noutro lama莽al coberto de 谩guas eutrofizadas.
Mas os problemas dos efluentes urbanos n茫o se circunscrevem a Aveiro e aos seus canais. Uma popula莽茫o de perto de 200 mil habitantes reside nos 8 concelhos que bordejam a Ria. Os seus efluentes, directa ou indirectamente, acabam por entregar 脿 Ria a quase totalidade do nitrog茅nio excretado e ainda uma frac莽茫o do aplicado na agricultura. E como os sedimentos devem conter quantidades apreci谩veis de f贸sforo, est谩-se em presen莽a de condi莽玫es favor谩veis 脿 eutrofiza莽茫o da Ria, eutrofiza莽茫o que j谩 茅 evidente por todo o lado, salvo nos canais de correntes mais fortes. Na verdade, n茫o s贸 茅 a turbidez elevada, mas principalmente 茅 espesso e quase cont铆nuo o manto de macr贸fitos fixos e flutuantes. Esse manto torna j谩 impratic谩vel a navega莽茫o em grande n煤mero de canais. Est谩 em curso a execu莽茫o de um projecto de investiga莽茫o que visa quantificar a produ莽茫o dos macr贸fitos. No entanto, parece evidente que, pelo menos em largas 谩reas da Ria, o seu ritmo de crescimento 茅 tal que n茫o ser谩 economicamente poss铆vel control谩-lo usando meios mec芒nicos de apanha, manuais ou n茫o. Parece estar-se na presen莽a de uma situa莽茫o onde s贸 uma altera莽茫o f铆sico-qu铆mica do ecossistema poder谩 ser eficiente. Um vasto campo est谩 a铆 aberto ao engenho dos investigadores portugueses.
De todos os efluentes urbanos produzidos na regi茫o ribeirinha da Ria s贸 recebem tratamento os correspondentes a 11000 pessoas de Ovar e a 7500 de Aveiro e esse tratamento 茅 pouco eficiente. A curto prazo, espera-se ampliar esse tratamento 脿s popula莽玫es de Estarreja e Vagos e 脿 totalidade da de Aveiro. No entanto, como nenhuma das esta莽玫es existentes ou previstas contempla a remo莽茫o de nutrientes, n茫o ser谩 de esperar uma melhoria muito significativa na qualidade da 谩gua, nomeadamente na turbidez, transpar锚ncia e macr贸fitos, nem na dos sedimentos que continuar茫o a acumular os restos da produtividade prim谩ria e secund谩ria do ecossistema. H谩 metodologias eficientes de remo莽茫o de nutrientes baseadas na cultura de algas e de peixes. As condi莽玫es naturais s茫o prop铆cias. Parece pois de aconselhar um esfor莽o no sentido de se encontrarem solu莽玫es para o problema, que sejam exequ铆veis e ambientalmente aceit谩veis. Esse 茅 um dom铆nio onde se justificaria uma interven莽茫o da JNICT e da SEA.
Enquanto essas interven莽玫es n茫o tiverem lugar e n茫o forem implementadas as medidas que os estudos revelarem mais aconselh谩veis, continuar-se-谩 a assistir a uma deteriora莽茫o crescente da qualidade da 谩gua em certas zonas relativamente localizadas da Ria. S茫o essas zonas que se assinalam na Figura 22. Adicionalmente haver谩 ainda uma contribui莽茫o para a eutrofiza莽茫o geral da Ria dada pelas fontes dispersas de nutrientes, que 茅 dif铆cil de quantificar, cuja import芒ncia variar谩 de local para local em fun莽茫o das caracter铆sticas do campo decorrentes, da topografia do fundo e dos caudais dessas fontes.
3 - IMPACTO DOS EFLUENTES INDUSTRIAIS NA RIA
O distrito de Aveiro ocupa um lugar destacado no panorama industrial portugu锚s. Apesar disso, o n煤mero de grandes unidades industriais localizadas no distrito 茅 relativamente pequeno, sendo a maioria das existentes de dimens玫es pequenas e m茅dias. Em termos de efluentes, isto significa que a maioria das ind煤strias funciona como fontes dispersas relativamente 脿 Ria, quase outro tanto se passando relativamente aos cursos de 谩gua mais importantes. E ao n铆vel dos pequenos ribeiros que os impactos ecol贸gicos causados pelas ind煤strias de pequenas e m茅dias dimens玫es s茫o muitas vezes dram谩ticos.
Nas vizinhan莽as imediatas da Ria h谩, contudo, tr锚s unidades industriais de dimens玫es apreci谩veis, cujos efluentes se suspeita que estejam a ter um efeito importante no seu ecossistema. E trata-se apenas de uma suspeita, porque, ao contr谩rio do que j谩 acontece por esse mundo fora, neste pa铆s n茫o se 茅 informado nem nos termos em que essas ind煤strias foram autorizadas a fazer descargas nas 谩guas p煤blicas, nem dos resultados das an谩lises que obrigatoriamente deveriam ser feitas com periodicidade pr茅-estabelecida. O que um membro do p煤blico consegue saber 茅 o que lhe 茅 cochichado 脿 mesa do caf茅 ou que, por artes mais ou menos detectivescas, vai obtendo daqui e dali.
Das tr锚s ind煤strias atr谩s referidas, uma 茅 alimentar, a Nestl茅, localizada em Avanca e descarregando para o rio Gonde; e as outras duas s茫o qu铆micas, uma sendo a f谩brica de pasta de papel da Portucel, em Cacia, que descarrega no Vouga, e a outra o parque industrial de Estarreja, envolvendo a produ莽茫o de fertilizantes, soda, anilina e outros produtos diversos, que descarrega algures no esteiro de Estarreja; e ainda a produ莽茫o de pl谩sticos, cujos efluentes s茫o enviados para o canal de Ovar. Al茅m disso, chega 脿 Ria, via Rio Vouga, uma carga poluente apreci谩vel, que 茅 descarregada no rio Caima pela f谩brica de pasta de papel da Caima Pulp Company.
Deixarei de lado a f谩brica da Nestl茅 por duas raz玫es: a primeira 茅 que, tratando-se de uma ind煤stria alimentar de lactic铆nios, a perturba莽茫o que porventura estiver a causar na Ria ser谩 devida a CBO e, eventualmente, a varia莽玫es de pH, quest玫es que, em termos de esta莽玫es de tratamento, s茫o f谩ceis de resolver. O problema, se existir, elimina-se pela simples aplica莽茫o das leis, n茫o se prevendo problemas grandes, nem t茅cnicos nem econ贸micos. A segunda raz茫o 茅 que n茫o consegui obter quaisquer informa莽玫es quantitativas quanto ao funcionamento dessa unidade fabril bem como de outras de menor dimens茫o existentes na zona.
A f谩brica de pasta e de papel de Cacia fez j谩 correr rios de tinta e os problemas que levanta t锚m preocupado os sucessivos SEA, aparentemente sem grandes resultados. Tudo o que se conseguiu obter at茅 agora foi a promessa de que a f谩brica por谩 em funcionamento, a curto prazo, um sistema prim谩rio de tratamento de efluentes l铆quidos. Os benef铆cios a colher desse esfor莽o podem resumir-se no seguinte: uma melhor uniformiza莽茫o na qualidade do efluente, remo莽茫o de cerca de 90 por cento das part铆culas suspensas e, talvez, um melhor controlo do pH e da temperatura com que o efluente 茅 descarregado. Em termos de Ria, isso vir谩 a traduzir-se numa redu莽茫o n茫o superior a 35 por cento no CBO oriundo do efluente e no benef铆cio est茅tico que resulta da redu莽茫o dos flutuantes e da turbidez.

Fig. 3: Representa莽茫o esquem谩tica das Zonas da Ria de Aveiro mais afectadas por esgotos urbanos: Aveiro (A); Estarreja (B); Ovar (C); Vagos e 脥lhavo (D); Costa Nova (E); Praia de Mira (F).
Isso, no entanto, 茅 muito pouco. 脡 que os componentes mais t贸xicos dos efluentes s茫o os dissolvidos e n茫o os suspensos e esses v茫o continuar a causar os mesmos estragos que agora provocam. Um efluente de uma f谩brica de pasta pelo m茅todo do sulfato, que adicionalmente tamb茅m produz papel branco, tem um efluente l铆quido muito complexo, onde existem, por ordem decrescente de toxicidade para os peixes, as seguintes classes de compostos: 谩cidos res铆nicos, 谩cidos res铆nicos clorados, 谩cidos gordos insaturados, clorofenois, 谩lcoois diterp茅nicos, juvabionas (compostos que mimificam certas hormonas), v谩rios compostos ac铆dicos saturados, v谩rios 谩lcoois alqu铆licos e arom谩ticos e variad铆ssimos produtos da decomposi莽茫o da liguina. Al茅m destes, existem muitos outros compostos org芒nicos e inorg芒nicos de toxicidade pequena ou nula como, por exemplo, sulfatos e s贸dio. Os dois 煤ltimos aparecem geralmente em concentra莽玫es inferiores 脿s que t锚m na 谩gua do mar, pelo que n茫o causam perturba莽玫es em ambientes estuarinos. Os restantes componentes, em conjunto e isoladamente, levantam problemas de toxicidade aguda e cr贸nica n茫o apenas para os peixes, mas tamb茅m para outras formas de vida que existam tanto na coluna l铆quida como nos sedimentos. Nestes aumenta muito o carbono e enxofre org芒nicos e o pH varia apreciavelmente. Essas altera莽玫es, em ambientes i贸ticos podem fazer-se sentir at茅 5 Km do ponto de descarga. Num rio como o Vouga, esses efeitos devem provavelmente fazer-se sentir at茅 脿 zona de dilui莽茫o directa causada pela cunha da mar茅, ou seja, at茅 jusante do Parrachil. Estas altera莽玫es nas caracter铆sticas dos sedimentos v锚m a traduzir-se pelo desaparecimento total de macro-invertebrados nas vizinhan莽as imediatas da descarga seguida, 脿 medida que a dist芒ncia aumenta, de redu莽茫o do seu 铆ndice de diversidade. Este est谩 directamente relacionado com o teor do enxofre total e do carbono org芒nico nos sedimentos.
As bact茅rias s茫o elementos da biota mais sens铆veis ao efluente. A influ锚ncia deste tem sido observada em ambientes i贸ticos at茅 dist芒ncias de duas dezenas de km. Se igual persist锚ncia existir em zonas lagunares, isso pode significar que toda a zona norte da Ria at茅 脿 ponte da Varela deve estar perturbada. O fitopl芒ncton e o perifiton sofrem redu莽玫es de actividades fotossint茅tica em efluente dilu铆do 100 vezes e, em alguns casos mesmo 10000 vezes. O zoopl芒ncton reduz a sua capacidade de filtra莽茫o sob a ac莽茫o do efluente, ficando essa capacidade completamente inibida para concentra莽玫es entre 5 e 10 por cento; al茅m disso, a inibi莽茫o torna-se permanente para exposi莽玫es prolongadas. Para os peixes a sensibilidade varia com as esp茅cies. O 96h LD50 varia entre 21 e 24 por cento de efluente, mas redu莽玫es no ritmo de crescimento j谩 ocorrem a dilui莽玫es de 6 por cento. Os compostos individuais que s茫o t贸xicos variam com a esp茅cie, mas um que 茅 comum a todas as esp茅cies 茅 o 谩cido dehidroabi茅tico, cuja vida m茅dia 茅 de 21 anos nos sedimentos de 1,5 meses da 谩gua. Outros compostos como fenol, guaiacol e arom谩ticos clorados s茫o bioacumul谩veis e conferem cheiros e paladares desagrad谩veis, que tornam o peixe impr贸prio para consumo, uma queixa que j谩 se ouve com frequ锚ncia aos pescadores da Torreira. A reac莽茫o dos peixes ao encontrarem o efluente 茅 a de o evitarem, o que poder谩 ter efeitos desastrosos para as esp茅cies migrat贸rias que pretenderem subir o rio Vouga.
Pensa-se que o que ficou dito permite avaliar o perigo que a descarga da f谩brica de Cacia pode representar para a biota da Ria. N茫o creio ser poss铆vel, neste momento, afirmar-se qual o impacto que o efluente est谩 efectivamente a ter sobre o ecossistema lagunar. N茫o se conhecem estudos que tenham procurado avaliar esse impacto. N茫o se conhecem tamb茅m quaisquer estudos de toxicidade que tenham sido feitos com o pr贸prio efluente da f谩brica sobre os animais lagunares. E a toxicidade desse efluente pode ser bastante diferente da que est谩 descrita para efluentes de outras f谩bricas semelhantes mas que laboram esp茅cies silv铆colas diferentes, j谩 que a toxicidade do efluente depende da composi莽茫o da madeira usada na f谩brica.
Quem percorre a Ria na zona do delta do Vouga n茫o tem d煤vidas de que o efluente da f谩brica est谩 a ter um efeito nocivo; mas essa impress茫o 茅 meramente qualitativa e resulta da observa莽茫o do impacto do efluente sobre a qualidade da 谩gua quanto ao seu uso para recreio e amenidade paisag铆stica. A cor, cheiro e aspecto da 谩gua, das margens, dos fundos e da vegeta莽茫o est茫o profundamente degradados e isso, s贸 por si, numa regi茫o tur铆stica como Aveiro, justificaria que as autoridades procurassem obter a coopera莽茫o da Portucel por forma a conseguir-se a implementa莽茫o do conjunto de medidas indispens谩veis 脿 elimina莽茫o dos aspectos mais chocantes do impacto do efluente. Isso acabar谩 por passar necessariamente pela instala莽茫o de alguma esp茅cie de tratamento secund谩rio para o efluente, tratamento esse que, dadas as caracter铆sticas da regi茫o, e a abund芒ncia de terreno, poder谩 eventualmente vir a realizar-se sem necessidade de Investimentos incomport谩veis para a economia da empresa e da na莽茫o.
Mas n茫o s茫o os aspectos est茅ticos os argumentos de maior for莽a em favor do tratamento secund谩rio do efluente. O desequil铆brio ecol贸gico causado na Ria e no Vouga 茅 sem d煤vida um factor de muito maior peso. Urge identificar os componentes do efluente que t锚m maior toxicidade e estudar os seus mecanismos de degrada莽茫o. Ser谩 com base nos resultados desse estudo que se dever谩 projectar a esta莽茫o de tratamento. S贸 assim se optimizar谩 a rela莽茫o custos-benef铆cios do empreendimento, optimiza莽茫o essa que ser谩 indesculp谩vel que n茫o seja atingida. Temos presentemente reunidas em Aveiro algumas das condi莽玫es necess谩rias para a realiza莽茫o do estudo referido. Existe uma Universidade com pessoal qualificado, existe algum equipamento, conhece-se a metodologia. S贸 falta um catalisador que fa莽a surgir os meios materiais que n茫o existem e que fa莽a nascer nas pessoas a motiva莽茫o que lhes falta para lan莽ar as m茫os 脿 obra. Um dos 贸rg茫os regionais com responsabilidade na gest茫o do ambiente poderia facilmente tornar-se nesse catalisador.
Os problemas associados com o efluente do parque industrial de Estarreja s茫o um tanto diferentes dos de Cacia. As ind煤strias mais importantes instaladas no parque produzem nitratos, sulfatos, soda c谩ustica, cloro, pl谩sticos e arom谩ticos substitu铆dos. O parque tem, em alguns pontos, tratamentos parciais de alguns efluentes, que v茫o do simples ajuste de pH, feito manualmente, aos sistemas mais complexos de remo莽茫o de org芒nicos residuais atrav茅s de colunas de carv茫o activado. O conjunto de tratamentos, por茅m, 茅 descoordenado e incompleto, resultando da铆 um efluente industrial de qualidade muito vari谩vel. Para essa variabilidade contribui tamb茅m a 谩gua de escorrimento superficial de todo o parque, que 茅 misturada ao efluente industrial e provoca varia莽玫es de caudal, habitualmente da ordem dos 50 cm3/h, que facilmente atingem os 100 por cento.
O efluente n茫o 茅 caracterizado com regularidade. H谩 um conjunto de an谩lises pouco significativas que s茫o feitas mensalmente pelas f谩bricas e que, aparentemente, n茫o s茫o lidas por ningu茅m, embora sejam enviadas 脿 autoridade licenciadora do lan莽amento, neste caso a Direc莽茫o Hidr谩ulica do Mondego.
Uma vez que os sulfatos s茫o sintetizados a partir da pirite, ser谩 de esperar que o efluente seja rico em metais pesados diversos, como cobre, chumbo e zinco, e em n茫o metais t贸xicos como o ars茅nio. Ser谩 de esperar tamb茅m concentra莽玫es elevadas de sulfatos, nitratos, amon铆aco e mol茅culas org芒nicas diversas, desde o cloreto de vinilo aos arom谩ticos substitu铆dos. Ser谩 ainda de esperar quantidades apreci谩veis de hipocloritos e varia莽玫es bruscas e grandes de pH, muito embora, dada a predomin芒ncia das instala莽玫es da Quimigal, o pH tenda a ser habitualmente baixo.
Com um tal panorama pode perspectivar-se o impacto que esse efluente possa ter na Ria. O efluente 茅 rico em metais pesados e a Ria tem sedimentos ricos em mat茅ria org芒nica. Os metais ser茫o pois complexados por essa mat茅ria org芒nica e arrastados para o fundo com a sua flocula莽茫o. Mas o efluente ser谩 frequentemente 谩cido e a hidr贸lise da mat茅ria org芒nica ser谩 catalisada em meio 谩cido. Dessa forma ser谩 libertada para a solu莽茫o uma parte dos metais pesados que, entretanto, tiverem sido complexados. Quer no fundo, quer na coluna l铆quida, os metais podem ser acumulados pela biota, onde causar茫o os efeitos t铆picos da polui莽茫o met谩lica. Pode, al茅m disso, ser ainda iniciado um processo de amplifica莽茫o biol贸gica de que as popula莽玫es ribeirinhas poder茫o eventualmente estar j谩 a ser v铆timas. A铆 est谩 um campo que vale a pena investigar. Mas pior do que o processo descrito acima 茅 um outro que tem uma grande probabilidade de acontecer. J谩 se disse que o esteiro de Estarreja recebe efluentes urbanos. A quantidade de mat茅ria org芒nica existente no fundo deve ser grande e a probabilidade de ocorrerem reac莽玫es anaer贸bias nos sedimentos ser谩 muito elevada. Tais condi莽玫es s茫o muito favor谩veis para a forma莽茫o de compostos alqu铆licos de alguns metais, nomeadamente o Hg e o Pb. Esses compostos t锚m a propriedade de atravessar muito facilmente as membranas biol贸gicas, pelo que se acumulam rapidamente nos tecidos dos seres vivos presentes, particularmente dos que vivem no fundo e se alimentam filtrando a 谩gua, que 茅 o caso de muitos moluscos, alguns dos quais s茫o directamente comidos pelo homem. Foi uma situa莽茫o semelhante a esta que originou o desastre de Minamata.
H谩 ainda um outro problema que vale a pena referir. O efluente deve conter produtos org芒nicos sint茅ticos diversos. Esses produtos, al茅m de efeitos de toxicidade directa, tanto aguda como cr贸nica, s茫o frequentemente bioacumul谩veis e originam paladares e aromas desagrad谩veis, pondo assim em risco tanto a sa煤de como o valor comercial das pescarias da regi茫o.
Finalmente, talvez valha a pena referir tamb茅m os efeitos que poder谩 ter o nitrog茅nio transportado no efluente. A concentra莽茫o de amon铆aco deve andar pelas centenas de mg/l e a de nitratos pelos milhares. Como se sabe, o amon铆aco 茅 extremamente t贸xico para toda a biota e, em especial, para os peixes, sendo os limites tolerados da ordem de 1 mg/l. Os nitratos s茫o, como j谩 se disse, factores determinantes da eutrofiza莽茫o da Ria. Lan莽ar despreocupadamente num canal de pequena circula莽茫o centenas ou milhares de mg/l de nitratos e andar paralelamente a tentar manter esse canal livre de macr贸fitos 茅 um exemplo acabado de incoer锚ncia.
ARISTIDES HALL